Que então o dia comece pela noite.
Comece com suas pernas estiradas ao alto, tocando a clarabóia de estrelas, se apoiando pelos calcanhares, na escuridão lunar.
Que o dia então termine num canto esfumaçado de Saturno, que voltou para me laçar em seu anel de esperança.
Que comece então a ecoar, pelas escadas giratórias de néon que foram erguidas pelo lado de fora da casa, que não alcançam nada de concreto, nada de concreto que faça os dedos dos pés formigarem.
São apenas os efeitos dessa atmosfera cristalina, absorvida pelo pulmão e liberada através de cantos sonâmbulos.
Consciência alguma me faz amar, tudo que eu sinto vem dessa coisa de “não estar”.
É não ouvir o seu nome falado por bocas atrozes, é não rastejar sobre corpos castrados, é não cair nos lábios frios da multidão de pedintes, com seus cartazes de aluguel de sentimentos e ordens amorosas de despejo.
Por isso então que eu mordo o pão abstrato dos planetas distantes,
lugares habitados por crianças imaginárias, com suas pipas de orvalho a flutuar pelos dentes gasosos de um horizonte feliz.

vc e esse saturno aí.