Corda arrebenta e o menino aprende a voar

•Agosto 31, 2009 • 1 Comentário

trapézio

Bom é não estar, bom é não ser visto enquanto se faz algo, bom é se perder
do grande fluxo, escapar pelo vão da visitação e ser esquecido no subterrâneo.

Bom é sentir o sol e não se deixar queimar, deixar arder por dentro, por onde passa o sangue, bom é ter o sangue quente e arenoso ouriçando os poros da pele, bom é não saber onde se vai parar.

Voltar quando todos já foram pra cama, levar o melhor de um dia para a cama, deixar o travesseiro se alegrar com o que a cabeça tem pra contar.

Pese por cima, levante do alto de um belo céu de batom solar, deixe rebater o vento que vem das asas dos pássaros, imigrantes de um inverno mais ao norte, em busca de sol para os filhotes.

Fale baixo e todos irão ouvir, fale de dentro de uma concha desabitada, fale do pé sem freio e deixe os ouvidos cantarolar.

Pese por cima, adormeça no colo da mais bela mulher, deixe que as mãos sigam sozinhas, deixe que elas descubram o que segurar que assim nada lhe escapará.

Natural Born Killers

•Maio 7, 2009 • Deixe um comentário

Melhor é você não dizer nada sobre o rastro deixado a partir do buraco da bala, porque mesmo que você vá pra longe, mesmo que
você tenha com quem dividir o peso do crime, você sempre será rastreado.
Não é pelos vestígios de sangue coagulado, não é pela facilidade em se cometer novos crimes.
É sobre natureza que estamos falando, é sobre quem nós somos. O cheiro que traz  o vento que bate contra o carro  é a própria
falta de culpa manifestada, esse odor de calamidade causado pela respiração do casal diz mais sobre as almas do que sobre
o lixo que foi ingerido na ultima parada.

Eu gosto dela porque ela foi a primeira que se despiu da hipocrisia quando me disse que era melhor matar do que morrer.
Faz sentido principalmente depois que eu vejo no rosto dela brotar um entusiasmado sorriso causado pelo estrago de uma bala
de revolver, as mãos empunhando a morte e o seu corpo suado sendo bombardeado por minhas carícias despretensiosas.
É como se o próprio Deus estivesse abençoando todas as maldades deixada por nós, nas almas que fizemos nascer, nas estradas
que fizemos queimar.

Me lembro de quando ela me disse que não era o ato de respirar que nos fazia ter a noção de que estávamos vivos e sim
quando nos faltava o ar.

Mesmo que agora eu dirija sozinho, mesmo que eu não tenha mais aquela carinha de anjo se maquiando pelo espelho retrovisor do carro.
Mesmo que só haja um corpo carbonizado nos restos do automóvel capotado no acostamento. É sempre por ela
que o meu motor irá ranger na busca de novos horizontes malditos.

(eu ensinei ela a matar e ela me ensinou a não deixar pistas)Natural Born Killers

Luto Básico

•Maio 7, 2009 • Deixe um comentário

Há tanto veludo por aqui, tanta morte pisada nesse manto de caçador.
Seus pregos marcados que tanto me comovem, sua pele esticada e suspensa representando uma cena de amor.
Que volta você fez para não viver mais do lado de dentro?
Se abriu demais feito uma flor, deixou que devorassem sua inocência e se esqueceu de pedir o número de ajuda.
Se pendurou demais no inferno, regojizou a paixão da moça e estancou o choro com uma pá de areia.

Você se perdeu no feltro, perdeu de tudo um pouco por causa de suas bonecas crescidas.
Sua cabeça se debruçou em uma bandeja de barro, recheada pelo seu próprio coração que já não precisava mais do peito para falar.

Peça pra ela um carinho, peça pra ela um próximo encontro, peça pra ela um copo d’água pra aliviar o vinagre.
Escolha entre a cruz e o cálice, pense em qual deles você irá descansar. De qualquer forma, sangue ou vinho acabam
virando uma mancha no vestido de festa.

De agora em diante, só permita que a dor lhe beije os pés, deixe que o calor de suas agulhas lhe afague a alma pelas entranhas,
divida seu nicho com ela, porque ela nunca lhe faltará, nunca deixará suas telas em branco, nunca deixará seus poemas
morrerem embaixo da cama.

Fita Queimada

Fita Queimada

virado para um travesseiro morto

•Abril 26, 2009 • Deixe um comentário

Com os meus olhos nas mãos, ela se apoiava sobre os meus joelhos. Com as pernas estendidas e a ponta dos dedos me dando carona, me tirava todos os dias, daquele quarto de hospital. Tudo ali era branco e bege, azulejos frios e descuidados, enfermeiras grosseiras e injeções de dores por buracos que não precisavam ser feitos. Mas ela, ela e o seu toque de azul borravam a alegria no meu peito. Dos olhos dela eu tirava o pano pra pintar um oceano de água doce. Era por causa do ocre de um pequeno tubo de tinta que eu vi nascer da escova que ela usava para modelar o cabelo. Era tão real, por isso eu nunca acordava a tempo, a tempo de ver a tevê ser ligada pelo carcereiro do turno da noite. Os outros residentes achavam que eu deveria estar ficando demente, notavam minha excitação diante da imagem dela, percebiam que eu conversava com alguém que estava pousada sobre o quarto escuro da lua, costurando peças de um carrossel colorido, pulando e fotografando as estrelas que jorravam mel pelos cantos dos dedos, estrelas com boca sorridentes. É, tinham apenas bocas, ninguém por ali, naquela órbita surreal ousava ter olhos, olhos só os dela, só os dela poderiam causar incidentes passionais psicóticos afetivos amorosos extravagantes… Click!… Acenderam as luzes da ala masculina, todos acordaram mal humorados, mijados e castrados. Apenas eu me dava ao luxo de ter asas, asas costuradas com penas de algodão doce, o mesmo doce dos beijos que nela eu dava em meus sonhos de íris azul.

Balde de Abril

•Abril 24, 2009 • Deixe um comentário

last goodbye

Sempre existiu uma incomoda vontade de mudar as coisas, mas essa era sempre efêmera, bastava ele trocar a roupa da cama que a vontade era colocada na máquina de lavar junto com o lençol sujo.
Se procurar nos outros era o seu maior problema, não deveria agir assim pois estar sozinho era uma condição, não era causa de escolhas ou de precipitações, seu legado deveria ser transmitido pela dor de estar, de ser.
Sexualmente se deixava levar por belos pares de seios, queimava sua gasolina evaporando as roupas das meninas que encontrava pela noite, tudo isso transportado de um pedaço de pano esticado em traves de madeira.
Grande bobagem, grande bobagem era deixar que a porra secasse na roupa de cama e achar que isso fosse lhe trazer algo eterno, um ideal romântico acoplado a cabeça de baixo, que esporrava no coração
um bombardeio de idéias falsas sobre algo chamado de “amor”.

Eu poderia dizer que essa é mais uma canção de revolta, sobre um jovem que se matou, mesmo depois de já estar morto. Quantas vezes repetiu o ato de enfiar o peito na frente do mundo como se fosse um alvo fácil de ser abatido.
Tudo isso eram impressões provocadas pelo medo de não ter pra quem mostrar os demônios do seu armário, os mesmos que provocavam nele o ato de se masturbar diante de uma tela em branco.
Seu carma era o contraponto dos pontos costurados em sua boca, visões e aparições de santos sacrificados,  disfarçados de assombrações.

Não poderia fazer nada pra se libertar, a não ser que deixasse de levar aos outros suas impulsividades sexuais, que se resultavam das suas abstrações eróticas, tão passageiras quanto suas próprias ereções.

Ele agora estava com os punhos cerrados e o sorriso mastigado pela sensação mórbida de liberdade, algo que lhe trazia perturbação criativa e uma agressividade que se manifestava através de pequenos calafrios na espinha.

Mesmo estando assim, ele poderia muito bem olhar para uma garota e reconhecer nela a possibilidade de se comprometer com algo bem maior do que aquela baboseira dogmática da qual estava sendo libertado.
Era como deixar de gozar no espelho e passar a gozar em uma janela aberta.

Não pretendia se reconhecer em ninguém, apenas se estranhar.